Portugal perdeu os pastorinhos Jacinta e Francisco para a pneumónica, a doença que varreu o Planeta em três vagas sucessivas, entre as primaveras de 1918 e de 1919, mas a gripe espanhola (embora não haja consenso acerca da origem do vírus), vitimou mais portugueses conhecidos, como os pintores Amadeo de Souza-Cardoso e Guilherme Santa-Rita, o maestro David de Sousa e o músico António Fragoso (lá fora, Apollinaire, o poeta francês, gravemente ferido em combate, acabou por morrer vitimado pela gripe).
Os cálculos atuais desta doença em todo o Mundo variam entre os 40 milhões e os 100 milhões e Portugal terá sido um dos países mais afetados – as estatísticas oficiais apontavam para 60 474 vítimas mortais, mas num estudo de 2018, publicado no ‘American Journal of Epidemiology’, foram confirmados 117 764 óbitos. Na altura, Ricardo Jorge, então diretor-geral da Saúde, tentou criar um sistema de saúde de um momento para o outro com uma estrutura em pirâmide, envolvendo os distritos e os concelhos, e tornando a pneumónica doença de notificação obrigatória. Os primeiros casos foram detetados em homens de Vila Viçosa, que tinham estado a trabalhar nas ceifas em Badajoz e Olivença. Mas o vírus pode ter sido trazido pelos militares regressados das trincheiras da Grande Guerra.