António Lobo Antunes (n. 1942) é considerado por muitos o maior escritor português vivo. Além da depuração da escrita, trouxe para a literatura diálogos na linguagem do dia-a-dia: as suas personagens usam e abusam do calão, tal e qual como na vida real. As descrições eróticas são tão cruas que até o protagonista pode ser traído por um assomo de impotência.
A guerra de África, trauma da sua geração, é o pano de fundo da obra de Lobo Antunes. Ganhou todos os prémios literários que havia para ganhar em Portugal e muitos no estrangeiro. Falta-lhe só o mais cobiçado, mas ele desabafou numa entrevista: "Quero que o Nobel se foda". O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, quando o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Jorge Sampaio dera-lhe a Grã-Cruz de Santiago), disse que Lobo Antunes estava "acima do Nobel". Não ficou a perder com o ‘prémio de consolação’: a sua obra vai ser publicada em França na Bibliothèque de La Pléiade, a mais prestigiada coleção literária do mundo. É o segundo escritor de língua portuguesa a merecer essa consagração, depois de Fernando Pessoa.
Do livro ‘Os Cus de Judas’, ed. Dom Quixote
"(...) Vá por mim, doutor, sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa. (...) a minha mulher saía cedo para o emprego, ela trazia-me o pequeno-almoço à cama com as meias e as cuecas, boa como o milho, levantava o lençol, olhava e dizia Ai senhor tenente que hoje está tão grande. Ó doutor, só queria que provasse aquela competência. E os modos? E a delicadeza? Nunca lhe ouvi nenhum palavrão, era sempre: o coiso. O seu coiso isto, o seu coiso aquilo, dê-me o seu coiso, senhor tenente, gosto tanto do seu coiso, meta o seu coiso na minha coisinha."
"(...) vou subir a escada a arrastar a mala atrás de mim, abrir a porta, entrar, dissolver-me nos teus braços há tanto tempo sós, ver nascer a manhã na janela estreita do tecto, ao teu lado, assistir à chegada de anjo do padeiro, vou tocar a tua pele, as tuas pernas, o intervalo macio e tenro e côncavo das coxas, o espaço claro que separa os seios e possui o brilho nacarado de certas conchas secretas que a vazante exibe com o orgulho de um tesouro, vou entrar em ti devagar, até ao fundo, apoiado nos braços estendidos para assistir à alegria gritada do orgasmo, ao rosto a rodopiar na almofada coberto de uma elipse de madeixas, às órbitas de repente cegas, de repente opacas, que as pestanas escurecem de franjas trémulas de paramécia."
"(...) telefonei à hospedeira da TAP que me esperava, de Logan’s em riste, num terceiro andar do Bairro Prenda, metida nuns jeans tão apertados que quase se percebia, através do tecido, o pulsar das veias das coxas. (…)
– Olá, Modesty Blaise – disse eu a encolher-me. Os peitos dela, sob a camisola estampada, assemelhavam-se a duas peras enormes debaixo de um guardanapo Coca-Cola: sem a farda, perdia o coeficiente de mistério que eu teimo em atribuir aos anjos por vício que me ficou do catecismo, mesmo aos que servem refeições de celofane num corredor de avião. (…) a boca dela crescia na minha direção, côncava, gigantesca, sem fundo, as unhas vermelhas aumentavam até me roçar a pele, hálitos frios de carne crua aproximavam-se de mim, a gruta de um esófago de poço, onde o pedregulho do meu corpo tombaria num roldão de queda, nascia-lhe na raiz de ganga das coxas. (…)
Despi as calças, desabotoei a camisa, o umbigo do buda troçava da minha magreza pálida e aflita, estendi-me no colchão, envergonhado do tamanho do meu pénis murcho que não crescia, (…) a hospedeira pegou-lhe educadamente com dois dedos como num jantar de cerimónia não sei se com surpresa ou com desgosto, Entesa-te minha besta, ordenei-me eu dentro de mim, (…) toquei a vulva da rapariga e era mole, e morna, e tenra, e molhada, encontrei o nervo duro do clitóris e ela soltou um suspirozinho de chaleira pelo bico esticado dos beiços, Pela alminha de quem lá tens entesa-te, supliquei a mirar de viés a minha pila morta, não me deixes ficar mal e entesa-te, pela tua saúde entesa-te, entesa-te, foda-se (…) a rapariga parou de me beijar, apoiou-se no cotovelo como as figuras dos túmulos etruscos, passou-me a mão na cara e perguntou O que é que não vai bem, Olhos Azuis?, e eu encolhi os ombros, rodei até ficar de bruços no lençol e desatei a chorar. (...)"